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domingo, 21 de novembro de 2010

Leia o livro, veja o filme

Durante muitos anos, a assim chamada Cortina de Ferro manteve-nos afastados dos países do chamado Segundo Mundo, cujo núcleo era a URSS. O intercâmbio cultural era na maioria dos casos inexistente, e, embora o contato tenha se intensificado nos últimos vinte anos, muito do que se produziu a leste do Elba em termos de literatura, cinema e música entre 1945 e 1991 segue praticamente uma incógnita em nosso país.

Em alguns casos não estamos perdendo nada. Mas em muitos outros, verdadeiras pérolas perderam a chance de chegar até nossas mãos. E um desses casos é o filme cuja primeira parte, com legendas em inglês, segue abaixo.



Trata-se de Вий ("Viy"), filme de 1967 inspirado no conto homônimo de Nikolai Gógol. Estrelado por dois atores que eu particularmente adoro (Natália Varlei e Leonid Kuravliôv), a película foi dirigido por dois então estudantes de cinema, Konstantin Iershov e Gueorgui Kropatchov.

O filme é brutalmente fiel ao conto e me arrisco a dizer que, se não fosse produzido na URSS dos anos 60, certamente teria se tornado um dos maiores clássicos de todos os tempos do cinema de terror. Com a nossa atual febre por filmes de zumbis e monstros de todos os tipos, ainda há tempo de resgatar esse incrível clássico.

Nota 1: é possível baixar o filme com legendas em português no blog My One Thousand Movies.

Nota 2: o conto foi recentemente publicado pela Berlendis & Vertecchia na coletânea Caninos, com tradução da nossa colega Denise Sales e cotejo desse que vos escreve (embora creditado como Lucas Simonetti).

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Sopa de letrinhas

É muito comum ouvir a afirmação de que a língua russa é impronunciável. Possivelmente baseadas nas curiosas formas do alfabeto cirílico, algumas pessoas acham que o russo é essencialmente consonantal. Essa afirmação pode ser em parte verdadeira para algumas línguas eslavas - como por exemplo o tcheco -, mas certamente não o é para o russo, que é muito mais vocálico do que se pode imaginar.

Vamos usar o português como exemplo. Temos em nossa língua cinco vogais: a, e, i, o, u. Duas delas se desdobram em versões abertas e fechadas (o e e). Não temos encontros consonantais envolvendo muitas letras e geralmente os acomodamos interpolando vogais entre as consoantes, ora somente na pronúncia, ora também na escrita. Alguns exemplos: sport vira esporte; vodca pronunciamos vódica.

No russo temos dez vogais! Elas são divididas em duras e brandas. As primeiras são basicamente iguais às nossas. As últimas são antecedidas por um som de i breve. Com isso, temos:

Duras
А (igual ao nosso a)
Э (igual ao nosso e)
О (igual ao nosso o)
У (igual ao nosso u)

e seus pares, as

Brandas
Я (i breve + a = ia)
Е (i breve + e = ie)
Ё (i breve + o = io)
Ю (i breve + u = iu)

O equivalente russo da nossa letra i é o И, que é a vogal branda por excelência. Poderíamos definir, grosso modo, um som brando como um som que é produzido para fora da boca. Assim, o par duro do И é a letra Ы, que poderíamos descrever como o mesmo som produzido para dentro da boca. Alguns o descrevem também como o meio do caminho entre u e i.

É de fato um som um tanto chato. Possivelmente a única forma de reproduzi-lo fielmente é ouvi-lo pronunciado em músicas, filmes e correlatos. Uma dica é o filme Операция Ы (traduzido como "Operação Y"), famosa película soviética estrelada pelo trio conhecido como "os Três Patetas russos": Iuri Nikúlin, Gueorgui Vítsyn e Ievgueni Morgunov.



O trecho acima está com legendas em inglês e aos quatro minutos e quarenta segundos Nikúlin fala o nome do filme (Операция Ы). Dá para ter uma ideia da pronúncia da letra, além de ser uma boa oportunidade de conhecer as trapalhadas desse lendário trio.

Resumindo. As vogais duras são cinco: А, Э, Ы, О, У. E as brandas são também cinco, seus pares: Я, Е, И, Ё, Ю.